Flipinha ignora os clássicos e os mais vendidos

Por Bruno Molinero

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) começou oficialmente ontem (29), mas é hoje que a programação do evento tem início para valer. Enquanto acontecem debates, saraus, shows e oficinas, as ruas e as mesas dos bares do centro histórico logo recebem uma mistura de escritores, leitores e turistas –e também crianças.

Não por acaso, existe um pedaço da Flip só para elas: a Flipinha. A versão infantil, que acontece desde 2004, é uma ótima maneira de dar o pontapé inicial neste blog Era Outra Vez.

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Até domingo, meninos e meninas terão contato no litoral do Rio com peças de teatro, rodas de tambores, livros, contações de histórias e, claro, autores e ilustradores convidados pela organização (veja a programação completa aqui). Assim como a Flip “adulta” convida uma série de escritores, a Flipinha também recebe uma seleção de nomes ligados à literatura infantojuvenil para conversar com crianças, pais e professores.

Com duas diferenças principais. A primeira é que a Flipinha é de graça, enquanto as mesas da Flip custam R$ 50 –um alívio para as mesadas dos filhos e o bolso dos pais. A segunda está na escolha dos convidados.

A programação oficial da Flip tem nomes como Caco Barcellos, Heloisa Buarque de Hollanda, Armando Freitas Filho, Tati Bernardi, J. P. Cuenca, Walter Carvalho e outros. Isso sem falar na jornalista Svetlana Aleksiévitch, de Belarus, que recebeu o Nobel de literatura em 2015. Você pode conhecer uns, ignorar outros, achar uma parte meio babaca e outra genial. Mas provavelmente acha alguma coisa sobre parte dos selecionados, o que, no fundo, é um dos motivos para pegar o carro ou o ônibus e desembarcar em Paraty.

Isso é ainda mais importante quando o público-alvo é a criança. Se ir à Flipinha não é como comer brócolis, ou seja, não é uma imposição dos pais do tipo “você vai fazer isso e ponto final”, seria importante ter um leque de autores do qual o público infantil já tenha ouvido falar e tenha curiosidade de conhecer. Ficar frente a frente com “o cara que fez aquele livro que eu li” em casa, na escola ou, no caso dos mais velhos, por vontade própria.

Acontece que as obras trabalhadas nas escolas, em 99% dos casos, são paradidáticos ou de autores já consagrados: Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, Ziraldo, Eva Furnari. Nos quadrinhos, o velho rei é Mauricio de Sousa há décadas. Já no caso dos livros lidos espontaneamente, é difícil fugir dos nomes mais pops, como Thalita Rebouças, Paula Pimenta ou Toni Brandão, por exemplo. Em qualquer bienal do livro, a fila para pegar o autógrafo deles é faraônica, pode levar horas para o desespero dos pais.

Só que nenhum desses nomes está na Flipinha neste ano.

Crianças participam da programação da Flipinha na quarta-feira (29), em Paraty (RJ)
Crianças participam da programação da Flipinha na quarta-feira (29), em Paraty (RJ) (Foto: Keiny Andrade/Folhapress)

“Já participaram Ana Maria Machado, Eva Furnari e outros escritores. Mas nos preocupamos em não chamar alguém só porque ele é considerado ‘grande’ ou porque está vendendo muitos livros”, diz Izabel Cermelli, diretora-geral da programação infantil e juvenil da Flip.

O caso do Ziraldo merece um parêntese: ele chegou a ser convidado em 2010, mas depois se recusou a participar e entrou em polêmica ao declarar que sua negativa tinha sido motivada por causa do nome do evento: Flipinha, cujo diminutivo supostamente colocaria a programação em um segundo plano em relação à da Flip. Não vou entrar nesse assunto agora, mas espero em breve discutir por aqui se a literatura infantojuvenil é realmente considerada de “segunda classe”.

De qualquer forma, há escritores e ilustradores interessantes na programação deste ano. Vale a pena escutá-los, questioná-los, conhecê-los –com destaque para a premiada Angela-Lago, que estará em Paraty e tem alguns de seus livros trabalhados em escolas. Assim como participar de outros eventos e conhecer o projeto completo da Flipinha, que é assunto durante todo o ano nas escolas públicas de Paraty. Os autores convidados visitam esses colégios durante sua passagem pela cidade.

Mas volto à questão da identificação. Neste ano, quem provavelmente vai chamar mais atenção e lotar a plateia é o ator Lázaro Ramos, que escreveu três livros infantis e estará na Flipinha. Mas a curiosidade do público passa muito mais por seus filmes e novelas, que não param de passar na TV, do que efetivamente pelas obras.

A culpa é da criança? Claro que não. São os autores que fazem parte do seu dia a dia que provavelmente não estão lá em Paraty.

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FLIPINHA

ONDE Paraty (RJ)

QUANDO até domingo (3)

PROGRAMAÇÃO acesse o site


 

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