Vivemos a ‘época do like’ na literatura, afirma Heloisa Prieto; leia entrevista

Por Bruno Molinero

As redes sociais não influenciam apenas os conteúdos dos livros feitos para adolescentes –basta lembrar que o topo das listas de mais vendidos está há meses dominado por youtubers, que foram a grande atração da Bienal do Livro de São Paulo deste ano. Pelo contrário: likes e compartilhamentos influenciam diretamente também a decisão de qual livro o leitor, principalmente o mais jovem, vai escolher –algo que antes ficava restrito ao boca a boca com os amigos e às críticas na imprensa.

“A gente vive a época do like, do efeito manada que indica sempre as mesmas coisas”, diz a escritora Heloisa Prieto, criadora de histórias tanto para crianças quanto para adolescentes –um de seus últimos livros, “A Una e o Leão”, acaba de ser lançado pela editora Sesi. O blogueiro, que na teoria serviria como um canal de opinião individual, ao diversificar ideias, encontrar histórias desconhecidas ou falar com grupos específicos, acaba não fazendo isso. E indica, na maioria das vezes, os mesmos best-sellers de sempre. “Por que raios você só deve gostar, adorar, recomendar um livro?”, pergunta Prieto.

Mas ressalta: as listas de livrarias (e os youtubers e blogueiros de plantão) podem enganar. Há muita gente lendo em bibliotecas, comprando livros em sebos e se interessando por histórias que não são captadas pelos radares mais tradicionais.

Leia abaixo entrevista com a autora.

 

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Folha- As listas de livros mais vendidos para adolescentes estão com muita história de youtuber e pouca literatura. O que está acontecendo?

Heloisa Prieto – Essas listas são todas baseadas em vendas de livraria, né? Elas dão uma falsa impressão de que só isso está sendo lido. Só que existe muita gente que não chega ao livro pela livraria. Compra na banca, na internet, em outros lugares. Lê na biblioteca, nos eventos de periferia –o Sarau do Binho, por exemplo, é muito forte. Existe um mundo fora das livrarias e dos circuitos mais conhecidos.

Teve uma vez, por exemplo, que uma leitora veio me pedir um autógrafo. Mas, no lugar de um livro, ela trouxe um caderno onde tinha transcrito a história inteira. Quando perguntei por que tinha feito aquilo, ela me disse que estava em liberdade assistida e que não podia tirar o livro do lugar onde cumpria pena. Então copiou tudo no caderno para pegar o autógrafo. É forte, muito bonito. A leitura não chegou nela via livraria. Isso não consta na lista de mais vendidos. Tem muita coisa boa acontecendo, edições independentes que estão esgotadas, poetas originais que encontram o seu público.

 

Esses best-sellers influenciam de alguma maneira a produção de livros para adolescentes?

Está acontecendo uma contaminação crescente da linguagem do roteiro norte-americano na literatura. É sempre a mesma estrutura: arco narrativo um e dois, ponto de virada um e dois e toda essa trajetória que, em certa medida, sempre existiu. É igualzinha à usada em livros como “Sabrina” e outros que se preocupam mais em ser confortáveis do que em instigar. O Quixote só lia besteiras, por isso ele vira maluco. É essa a crítica que o Cervantes faz. A besteira que ele lia naquela época são hoje as histórias de youtubers, os “Game of Thrones”.

A literatura instigante, aquela que faz pensar, que faz sentir, é menos da moda. O que fica famoso é o livro que você pode controlar. Mas isso varia, claro. A mesma galera que lê “Crepúsculo”, costuma gostar de literatura gótica, por exemplo. E os livros góticos não têm fim aconchegante, não acabam como se imagina. As duas coisas acontecem em paralelo.

 

A gente vive a ditadura do blogueiro que só recomenda o best-seller?

A gente vive a época do like, do efeito manada que indica sempre as mesmas coisas. Isso é o oposto da sensação de encontrar um livro que seja seu. Eu adoro me sentir parte do todo, viver o clima de estádio de futebol, de show de rock. Mas o problema disso na literatura é quando você se preocupa muito com o best-seller, cria unanimidades, e esquece o long-seller. Nunca me interessei em ser best-seller. Quero ser alguém que permanece. O problema é que não se valoriza esse tipo de obra hoje.

O blogueiro, que era para ser um canal de opinião individual e ajudar a diversificar opiniões, acaba tornando tudo mais homogêneo. Sartre dizia que o crítico é o protetor do bolso do burguês [risos]. Ele recomenda gastar dinheiro com isso, não com aquilo. Só que assim você acaba com uma coisa muito legal: o ódio. Existem mil maneiras de se gostar de um livro –e uma delas é odiar. Os likes acabam com a possibilidade do conflito. Por que raios você só deve gostar, adorar, recomendar um livro? A literatura desloca, gera indagações, medos.

 

O adolescente é mais suscetível a esse efeito manada, ao like?

Com certeza. Mas também faz parte da adolescência, depois de se distinguir da família, buscar se diferenciar do próprio grupo. Encontrar o que é só seu. Mas claro que o livro que é recomendado pelo like, que fica badalado, também é importante. Tem hora que você está no trem e só quer saber se o detetive vai descobrir quem foi que cometeu o assassinato. Quer sangue. Quando sua mente está cansada, esse tipo de leitura é muito legal. Seu desejo é ter um livro que você domine –e não o contrário.

 

Não é possível juntar as duas coisas? Fazer um best-seller que faça pensar?

O Umberto Eco fez “O Nome da Rosa” assim, né? Apostou que faria um best-seller, foi lá e fez. É divertido brincar com esses códigos. Ele usou toda a estrutura clássica, o conflito de quem matou quem, o mistério de quem vai ficar com quem –algo que é usado exaustivamente em novelas. E, com isso, criou um livro maravilhoso.

Tudo é um jogo narrativo. Não existe uma história que não beba na fonte de “Dom Quixote” ou de “O Apanhador no Campo de Centeio”. São livros matriciais. As histórias da saga “Crepúsculo” tinham momentos de idílio ou conversa, o que é algo muito presente nas novelas de cavalaria, em Platão. Era algo que havia sido esquecido no romance moderno, mas que os vampiros recuperaram. As histórias hoje são feitas com muita ação. Como os roteiros de filme norte-americano.

 

‘Crepúsculo’ é uma saga muito feminina, assim como várias outras histórias que estão nas listas de mais vendidos. Best-sellers são feitos mais para meninas?

As meninas estão lendo muito. Mas não é algo novo. A gente teve a Biblioteca das Moças [coleção de livros publicados para o público feminino até a década de 1960]. Estou preparando um livro que me fez pesquisar essa coleção, que eu herdei da minha avó. Todas as histórias eram absolutamente iguais. Assim como acontece hoje, só que elas tinham outra pegada. Por exemplo: as “it girls” hoje são as meninas elegantes. Mas, naquela época, em que já existia esse termo, eram as meninas mais selvagens, que usavam saia curta, chocavam a sociedade. Mas, no fundo, é o mesmo.

O livro previsível é igual o fenômeno das novelas, o fascínio que “Chaves” exerce entre crianças e jovens. Quando eu era professora, lembro que os pais odiavam “Chaves”. Eles vinham me perguntar por que os filhos não desgrudavam do programa, que tinha sempre o mesmo começo, meio e fim. Justamente por isso. Porque é previsível. O livro previsível é um aconchego.

 

As meninas hoje estão discutindo mais questões de gênero e feminismo, mas isso não fez a busca por livros aconchegantes diminuir.

A gente vive em uma sociedade muito árida, sem momentos mágicos, sonhos. O urbano é muito desprovido de imaginação e criatividade. Então, o livro vira uma projeção.

 

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NOME Heloisa Prieto // IDADE 62 anos // LIVROS RECOMENDADOS “1001 Fantasmas”, “Andarilhas”, “As Três Faces da Moeda” // LIVRO FAVORITO NA INFÂNCIA Coletânea de contos do Hans Christian Andersen

O autor sabe que está escrevendo um livro previsível?

Sabe, claro. O que ele não sabe é a mensagem. As crianças e os jovens me perguntam qual é a mensagem da história que escrevi. Sei lá. Quando você escreve, existe uma tendência, uma afirmação mais ampla. Mas não tem uma mensagem óbvia. O escritor não tem controle. A linguagem conduz para outros lugares, coloca outros níveis de percepção. A tal mensagem depende da leitura. Da autoria da leitura.

 

Como assim?

Na autoria da leitura, não existe efeito manada nenhum. Você é o cocriador do livro. Tenho muitos leitores que mostraram partes das minhas histórias que eu não tinha percebido. Não via daquela maneira. Cada pessoa ressignifica a obra do seu jeito. Esse é o exercício legal, o barato da leitura. E é isso o que tornaria um blogueiro ou um youtuber que fala de literatura mais instigante. Não cairia naquele papel do Sartre, de ser o crítico que só diz o que o burguês deve ou não comprar. Iria contra a tendência do like.

 


 

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