‘Poesia para crianças não tem que ensinar nada’, diz Eucanaã Ferraz; leia entrevista

Por Bruno Molinero

Quanta poesia cabe num martelo? E num cotonete, num ovo, num simples grampo de cabelo?

Muita, se depender do escritor Eucanaã Ferraz, que lançou no fim de 2016 “Cada Coisa”, pela Companhia das Letrinhas. A obra é um almanaque com poemas sobre objetos do dia a dia, organizados em ordem alfabética. “É um pequeno museu para as crianças entrarem em contato com um mundo passado”, diz.

De fato, não fazem parte da obra computadores, celulares, videogames e outros gadgets e ferramentas tecnológicas. No livros, eles dão lugar à moringa, ao fósforo, ao alfinete.

O ar retrô é ressaltado pelas ilustrações, feitas pelo próprio autor e pelo designer Raul Loureiro. As imagens são criadas principalmente a partir de colagens e de ilustrações que fazem renascer o século 20, como se estivessem em uma cartilha dos anos 1940 ou em um cartaz de vendinha perdida no tempo.

Leia abaixo entrevista com Eucanaã Ferraz sobre o livro e sobre poesia para crianças.

 

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NOME Eucanaã Ferraz // IDADE 55 // LIVROS INFANTIS RECOMENDADOS “Cada Coisa”, “Palhaço Macaco Passarinho”, “Em Cima Daquela Serra” // LIVRO FAVORITO NA INFÂNCIA Enciclopédia Conhecer (Foto: Bruno Poletti/Folhapress)

O livro que acaba de publicar é um inventário poético de objetos que parecem pertencer ao passado.

O livro é um pouco fora do tempo. Queria que as crianças fossem transportadas a um mundo além das telas, do computador, do celular. Que fosse uma experiência abrangente, de tempo, de forma, de função. Ali você tem clássicos do design: a luminária, a cadeira, a rolleiflex. Não importa que a criança nunca tenha ouvido falar da rolleiflex, nunca tenha escutado bossa nova [a máquina fotográfica é citada na música “Desafinado”] –ela está tendo acesso a esses clássicos, a um mundo de formas e objetos duráveis, perenes. Um universo que é contra aquilo que nasce e morre, que tem vida curta.

 

Que é o DNA do digital, do mundo que elas nasceram.

Exato. No livro, o leitor tem acesso a uma vitrine de objetos que parecem muito antigos. E são mesmo. É um pouco a minha vida. Eu tenho 55 anos. Eles dizem respeito à minha história.

 

A gênese é uma memória da infância?

Surgiu do meu amor pelos objetos, pelas coisas. É um sentimento que existe desde garoto. Sempre gostei de formas, cores, texturas. A imagem vem antes da palavra. Foi então que percebi que queria um livro que fosse um inventário, que parecesse uma enciclopédia. Por isso a ideia de fazê-lo em ordem alfabética, como um grande catálogo da vida moderna. Ou um pequeno museu para as crianças entrarem em contato com um mundo passado.

Hoje tudo é tão rápido. Tenho alunos que nunca ouviram falar de disquete, por exemplo. Mesmo se eu tivesse optado por coisas novas para criar os poemas, logo elas iriam se tornar velhas. Então acabei escolhendo logo os objetos antigos mesmo. Mas que a gente ainda usa, como a borracha, o guarda-chuva, a moringa.

 

Embora sejam coisas, elas trazem muitos sentimentos.

Gosto de partir da coisa para saltar em direção ao sentimento. Os poemas não se limitam à descrição. Em alguns, nem falo diretamente do objeto, na verdade. É o caso do fósforo, que é um poema concreto. Queria que cada texto fornecesse uma experiência diferente. Alguns são mais líricos, outros metrificados, tem verso rimado, alguns mais livres…

 

Poesia para criança tem objetivo, deve ensinar algo?

Não gosto dessa ideia. O livro não tem que mostrar como se comportar, respeitar os mais velhos, escovar os dentes. O poema é uma experiência estética. Ninguém faz isso com os adultos, certo? Os poemas de Drummond não ensinam nada. Os do Bandeira não ensinam nada. São experiências com a palavra e com a forma. Por que então a poesia para crianças precisa ensinar a reciclar o lixo ou a conviver com a diversidade racial? O poema não tem que ensinar nada. O leitor precisa aprender essas coisas em outro lugar.

 

Escrever para crianças é diferente de escrever para adultos?

Quando escrevo para adultos, não escrevo para ninguém. Simplesmente escrevo. Já quando estou fazendo algo para crianças, eu penso na criança. É o único momento em que sei que existe um leitor do outro lado. E isso me exige mais, porque tenho menos liberdade e é preciso ter um cuidado, afinal existem uma série de experiências que pertencem ao mundo do adulto e só. E há outras que são partilháveis. Mas isso não significa facilitar para a criança. Elas precisam ter contato com tristeza, melancolia, desamor, desencontro. Todas as experiências possíveis.

 

‘Cada Coisa’ é um livro só para crianças?

Eu escrevi para a criança. Mas tenho certeza de que ele pode ser lido por adultos também. É censura livre. Os livros para adultos são mais limitados, coitados. Porque eles só servem para quem já cresceu [risos].

Sei que existem poemas ali que parecem muito complicados. Mas, no lançamento, o filho da dona da loja, que deve ter no máximo uns oito anos, me disse que o texto preferido dele é o “Folha em Branco”, que começa assim: “Peço licença para escrever sobre ela”. É um primeiro verso muito austero, sério, difícil. Não é uma brincadeira. E eu perguntei por que era o favorito dele. “Porque na folha em branco nós podemos tudo”. Uma baita resposta! Você se surpreende com as leituras. Mas, se a criança não entender algum poema, isso não tem importância nenhuma. A gente, que é adulto, não entende um monte de poesia por aí também. Faz parte da experiência poética.

 

Faz parte também dessa experiência o contato com diferentes tipos de verso?

A criança não pode ter contato só com poemas rimados e metrificados. Porque depois ela vai ler Drummond, mas ele não é assim. Vai ter contato com Augusto dos Anjos, mas a obra dele é outra coisa. O Haroldo de Campos, então, nem se fala. Aí ela não reconhece como poesia aquilo que está lendo, porque teve uma formação deformada lá atrás.

Poesia é uma linguagem complexa e difícil. Esse leitor precisa ser alguém inteligente, sensível, com tempo e disponibilidade. Não é para ler enquanto joga videogame.

 

Então é para poucas crianças?

Pode-se dizer que sim. Assim como é para poucos adultos. A poesia exige silêncio.

 

Há crianças hoje com esse perfil?

Muitas. Na verdade, é mais surpreendente que existam adultos com essa disponibilidade. E eles existem. As crianças, então, ainda mais.

 

Existe uma má vontade das pessoas com a literatura infantojuvenil, como se ela fosse algo menor?

Os livros infantis deveriam ter a mesma atenção crítica que os textos para adultos. Mas isso não acontece. A sensação é que são obras menores mesmo –o que estão longe de ser, na verdade.

Mas isso dá uma liberdade gigante para o escritor. Porque, quando você escreve um livro para adultos, todo mundo espera uma obra que, no mínimo, mude o rumo da poesia universal. Qualquer livrinho de dez poemas deve mudar os pilares da poesia contemporânea –se isso não acontece, você não fez nada que preste. Para crianças isso não é verdade, ninguém exige nada. Há pouca crítica especializada. Então, você fez um livro e pronto. E isso é maravilhoso.

 

Você é consumidor de livros infantis, acompanha o mercado?

Muito. Compro principalmente quando viajo: se estou na França, em Portugal, na Argentina (que tem uma cena editorial interessantíssima). Gosto desses livros muito por causa das ilustrações também. Elas são um dos motivos para eu fazer os meus infantis.

 

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“Cada Coisa”euca

Autor Eucanaã Ferraz

Ilustradores Raul Loureiro e Eucanaã Ferraz

Editora Companhia das Letrinhas

Preço R$ 49,90 (2016, 128 págs.)

Leitor intermediário + leitura compartilhada

 


 

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