Sala infantil da Biblioteca Mário de Andrade será paga por Charles Cosac

Por Bruno Molinero

A Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo (SP), irá inaugurar uma sala dedicada à literatura infantojuvenil ainda em 2017. O local será pago quase que integralmente pelo novo diretor da instituição, o ex-editor Charles Cosac.

O espaço, que foi batizado de A Flor Amarela em homenagem a um poema infantil homônimo de Cecília Meireles, tem como objetivo tentar atrair um público pouco presente no dia a dia do local: pais acompanhados de seus filhos, sejam eles crianças ou bebês.

Convidado pela gestão de João Doria (PSDB) em janeiro deste ano para assumir o cargo à frente da biblioteca, o fundador da editora Cosac Naify doará cerca de R$ 350 mil para reformar uma sala no térreo do prédio e transformá-la no novo ambiente. 

O projeto foi desenvolvido pelo premiado escritório de design Ovo e prevê mobiliário adaptado para crianças de dois a dez anos de idade e espaço para a realização de atividades como exibição de filmes, oficinas infantis e contações de histórias, além de contar com um fraldário –estrutura inexistente hoje nos banheiros da biblioteca.

Para não competir com a Biblioteca Monteiro Lobato, localizada a cerca de 1 km de distância e com acervo exclusivo de obras infantojuvenis, a Mário de Andrade apostará em um modelo de convivência, em que crianças poderão consultar um título para sua faixa etária enquanto adultos leem alguma obra do acervo principal. Tudo no mesmo espaço e sem o perigo de algum frequentador achar ruim a presença de um bebê chorando ou de uma meninada conversando alto.

Charles Cosac, em sua sala na Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo (foto: Marcus Leoni/Folhapress)

Antes do aporte de Cosac, a intenção era financiar o espaço com a ajuda de uma vaquinha na internet, que pedia um total de R$ 150 mil —enquanto cerca de R$ 225 mil sairiam dos cofres da própria instituição e da colaboração de parceiros.

O financiamento acaba nesta quarta-feira (22) após ficar três meses no ar e ter reunido pouco mais de R$ 25 mil, de mais de 300 apoiadores. Esse valor será utilizado na reforma. O dinheiro e a doação de Cosac não estão previstos no orçamento da prefeitura, mas poderão ser utilizados por causa de uma associação sem fins lucrativos vinculada à biblioteca, cujo um dos objetivos é a captação de recursos.

“A gente deve gratidão a quem fez doações. Não posso explicar por que a meta não foi atingida. Não sei se por uma reflexão sobre a real necessidade desse pedido da biblioteca ou por esse modelo não ser parte da nossa cultura”, diz Cosac, que assumiu a instituição com o pedido de crowdfunding já em curso, criado pela gestão do antigo diretor, o professor Luiz Armando Bagolin.

Embora a Mário de Andrade seja sustentada com verba da prefeitura via secretaria de Cultura, Cosac acredita que doar para a campanha não significa pagar impostos duas vezes. Nem enxerga um exagero no valor pedido. “A pessoa não era compelida a doar. E, se pensar na envergadura da Mário de Andrade, essa quantia é módica.”

Em 2011, a instituição foi reaberta após uma reforma que custou R$ 16,3 milhões e teve financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Cosac diz que sua intenção com a doação é incentivar empresários a fazerem o mesmo em futuros projetos. Entre suas prioridades, está a instalação de aparelhos de ar-condicionado, painéis solares e sistemas de captação de água da chuva.

O procedimento é parecido com o que João Doria vem adotando na prefeitura desde o início de seu mandato, em janeiro deste ano. Com o orçamento apertado, ele incentiva cada vez mais empresas a fazerem doações para ajudar programas municipais em troca de publicidade gratuita. Em reportagem publicada no início de fevereiro, a Folha mostrou que ao menos 22 empresas já doaram itens para a cidade–de banheiros públicos a veículos, passando por serviços de limpeza.

Sobre a possibilidade de abrir uma editora no futuro e ver-se beneficiado pelo espaço infantil, que poderia comprar exemplares de seus livros, Cosac nega. “Não penso em uma nova editora, ainda mais uma infantojuvenil.”

Mas afirma que vai usar seus contatos para formar o acervo da sala, já que a biblioteca tem poucos livros para crianças e atualmente não possui verba para adquirir novos títulos. “Quero conversar com donos de editoras para que eles doem exemplares.”

Principalmente de literatura contemporânea, diz. “Antes de sair [da Cosac Naify], comecei a ler livros infantojuvenis por curiosidade e percebi que as coisas mudaram. Li histórias com temas como suicídio, com dois pais, duas mães. Por uma motivação pessoal, busquei livros sobre Alzheimer. Embora esse material ainda seja escasso no Brasil, ele existe. Em certo sentido, gostaria de encaminhar a sala infantil nesse sentido, mais contemporâneo”, afirma.

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PRIMEIRO MÊS DE GESTÃO

Após um mês e meio à frente da biblioteca, Cosac começa pouco a pouco a colocar sua identidade na instituição. Em sua sala, por exemplo, uma estátua de Jesus Cristo feita no fim do século 18, em tamanho natural, enfeita a parede. O atual diretor da Mário de Andrade é colecionador de obras de arte e tem uma quantidade considerável de produções sacras. O próprio escritório da Cosac Naify costumava ser decorado com obras saídas da coleção de seu fundador.

“Minha gestão é de continuidade e de ruptura ao mesmo tempo. Estou em contato com o professor Luiz Armando Bagolin. Tenho total intenção de dar continuidade aos trabalhos dele, mas há projetos que não vão acontecer mais –como as baladas no terraço até tarde da noite, por exemplo. Temos que lembrar que estamos em uma área residencial e que aqui é um local de leitura”, diz.

A programação do ano está sendo fechada ainda, mas contará com apresentações de música erudita (outra das paixões de Cosac), além de peças de teatro e oficinas. Fora isso, há planos para abrir um restaurante em uma das áreas de convivência.

Segundo o atual diretor, a biblioteca continuará funcionando durante 24 horas, uma das marcas do período que Bagolin dirigiu a instituição. Mas o acesso ao prédio no período noturno e durante a madrugada deverá ser mais restrito. A intenção é que em breve os frequentadores desses horários precisem fazer um cadastro e tirar uma carteirinha. Para não afastar totalmente moradores de rua que visitam o espaço, não será exigido comprovante de endereço para fazer o documento.

“A gente precisa saber quem são as pessoas que estão na biblioteca durante a noite e instaurar um pouco de ordem.”

 


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