Che Guevara, Frida Kahlo e outras antiprincesas e anti-heróis ganham biografias para crianças

Por Bruno Molinero

No lugar do sapatinho de cristal, o coturno. Em vez de um cavalo branco, uma velha motocicleta. Do cabelo escovado e reluzente, um bigodinho. Da coroa brilhante, violão e pincéis.

Figuras históricas como Che Guevara, Frida Kahlo, Clarice Lispector e Eduardo Galeano tiveram suas vidas destrinchadas e ilustradas para crianças nas coleções Antiprincesas e Anti-Heróis. O projeto é argentino, encabeçado pela autora Nadia Fink e pelo ilustrador Pitu Saá. Mas foi traduzido para o português e chegou ao Brasil pela editora Sur Livro, de Florianópolis (SC).

“Em geral, temos criado as nossas crianças com o estilo Disney de ser. Na coleção, em vez de princesas e heróis, pessoas reais aparecem como uma alternativa à tradicional literatura infantil. Queremos deixar de lado as idealizações e mostrar uma realidade fora de estereótipos”, diz Marcelo Duvidovich, diretor da Sur Livro.

No Brasil, já foram lançadas as biografias de Frida Kahlo, Violeta Parra e Clarice Lispector, além das de Eduardo Galeano e Che Guevara –a história do guerrilheiro foi a última a ser lançada no país, no último mês de maio. A intenção é lançar a cada trimestre um novo título em português das coleções, que já venderam 20 mil exemplares por aqui.

Entre os inéditos em espanhol e candidatos a próximos da fila estão personalidades como o escritor argentino Julio Cortázar, Juana Azurduy (boliviana que lutou pela independência da América espanhola) e Alfonsina Storni (poeta argentina).  

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Como dita a norma para qualquer antiprincesa ou anti-herói que se preze, todos são provocadores e desfilam posições políticas fortes. “Os finais não necessariamente são felizes. Mas ver a Frida como heroína, por exemplo, desperta uma quantidade ilimitada de idéias para trabalhar com as crianças, tanto que todos os livros vêm uma página de atividades”, conta Duvidovich.

A única brasileira por enquanto é Clarice Lispector –embora tenha nascido na Ucrânia, em 1920, ela se mudou para o Brasil quando ainda era criança, onde se tornou uma das principais escritoras da língua portuguesa. Sexta biografada da coleção, sua história é uma das mais interessantes. Afinal, as opiniões contestadoras e a relação conflituosa com a própria literatura são acompanhadas sempre de perto pelo cachorro Ulisses.

O vira-lata de Clarice era tão inseparável de sua dona que no livro faz algumas intervenções. Mas essa não foi a sua primeira vez na literatura. Ulisses já foi o narrador (ou, talvez, o “latidor”) de uma obra infantil da autora: o divertidíssimo “Quase de Verdade”. No ano passado, a escritora ganhou também uma estátua no Rio. E adivinhe quem está lá ao seu lado? Ulisses, claro.

A coleção de anti-heróis e antiprincesas surge em uma época em que subverter moldes e limites está na moda em obras infantis já há alguns anos. Pode-se dizer que um mundo de possibilidades foi aberto às princesas.

Elas finalmente podem soltar pum, por exemplo, como mostra o explicativo livro de Ilan Brenman “Até as Princesas Soltam Pum”. Ou beijar vários sapos até achar o príncipe certo, tema do vencedor do Jabuti “A História Verdadeira do Sapo Luiz”, do autor Luiz Ruffato. Ou até se rebelar contra a chatice da vida de salto alto, como na obra “Por que só as Princesas se Dão Bem?”, da escritora Thalita Rebouças.

Clarice, Violeta, Frida e tantas outras não viram nada disso em vida. Mas, de certa forma, se juntam ao movimento.

 

Coleções Antiprincesas e Anti-Heróis

Autores Nadia Fink e Pitu Saá

Editora Sur Livro

Preços R$ 27 (“Che Guevara”); R$ 25 (“Eduardo Galeano”, “Clarice Lispector”, “Frida Kahlo” e “Violeta Parra”; cada um)

Leitor intermediário + leitura compartilhada

 


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