Livro mostra para crianças o que é ‘coisa de preto’

Por Bruno Molinero

O Dia da Consciência Negra, celebrado nesta segunda (20), veio neste ano acompanhado de três palavras-chave: coisa de preto. Há cerca de dez dias, o país vem discutindo o termo após o apresentador da Globo William Waack ter sido afastado de suas funções ao aparecer em um vídeo em que afirma que um barulho de buzina é “coisa de preto”.

Nas redes sociais, a hashtag #ÉCoisaDePreto passou a compilar conquistas e descobertas da população negra –de Obama a Machado de Assis, de Elza Soares a Viola Davis. Um livro recém-lançado pelo ilustrador Mauricio Negro é ótima oportunidade para estender essa discussão também para as crianças.

“Gente de Cor, Cor de Gente”, publicado pela editora FTD, parte de outra expressão com conotação pejorativa: “gente de cor”. Nele, cada página dupla exibe dois meninos lado a lado, um negro e outro com pele que pode ser branca, azul, verde, rosa, laranja…

Ambos passam pelas mesmas situações: sentem frio, fome, raiva, ficam doentes ou tomam sol. Sem qualquer palavra, a obra é uma sequência de ilustrações coloridas e cheias de expressão que conseguem levantar discussões profundas como racismo, discriminação, preconceito e diversidade de maneira simples e, por que não, divertida, principalmente ao brincar nas imagens com expressões como “verde de fome”, “azul de frio”, “sorriso amarelo” ou “branco de susto”.

Fugindo de um didatismo moralizante, os desenhos deixam o leitor encucado: o que realmente diferencia os dois garotos das páginas? Se vivem na pele as mesmas questões, se reagem da mesma maneira e se o sangue deles é igual, como podemos ver na cena em que cortam o dedo (a ilustração abre este texto), o que seria então “coisa de preto”? Não deveria ser coisa de gente? Assim como todo mundo é “gente de cor”, cada qual com a sua cor de gente?

Não é difícil chegar a um discurso de igualdade ou mostrar às crianças que todos sentimos frio e medo ou que passamos pelas mesmas angústias e felicidades, independentemente da pele.

Difícil é explicar, como mostra a necessária coluna de Bernardo Mello Franco nesta Folha, que pretos e pardos somam 63,7% dos desempregados do Brasil, ganham menos, ocupam vagas piores e têm menos estabilidade no emprego. Além disso, o rendimento médio dessa faixa da população é de R$ 1.531, enquanto o dos brancos chega a R$ 2.757.

Juntando essas pontas, a literatura floresce.

 

“Gente de Cor, Cor de Gente”

Autor e ilustrador Mauricio Negro

Editora FTD

Preço R$ 45 (2017; 32 págs.)

Leitor iniciante + leitura compartilhada

 


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